Ler é um prazer ímpar. Lemos para nós
mesmos, para os outros, por diversos motivos, mas se há uma leitura
mais cheia de emoções e de imprevisões que a leitura para crianças,
duvido.
Leio para minha filha desde seus primeiros
meses de vida.
Acostumei-me a ouvir música, rezar e ler um pouco antes do sono
noturno. Não posso
dizer que fui fiel a todas as noites, nem que a disposição sempre
foi a mesma, mas garanto que sempre é divertido e nunca
monótono.
Há dias em que os pais cansam, os olhos
pedem o escuro e o restante do corpo uma grande pausa, mas o que
dizer desses alienígenas que chegam ao nosso mundo e são conduzidos
por nós à maturidade para adaptarem-se aos nossos costumes e
valores? É preciso
satisfazer suas necessidades. Aproveitar toda energia e percepções
sobre-humanas com as quais já vem dotados antes que
desacelerem.
Quem não viu esta cena? O Sr.papai
dormindo com todos os seus roncos e a filha , ou filho, de olhos vivos e acesos
brincando na rede, rolando em cima de sua barriga tentando
descobrir o que as páginas dizem e procurando o botão em seu rosto
com o qual ele reabra os olhos e conte o final da
história.
- Mas hoje, tem historinha ou não? Não
enrola papai.
-Tá legal. Atenção! Era uma vez uma menina
que estava com sono, deitou na rede, fechou os olhos e
dormiu.
_ Pronto?
-Pronto. É uma história curta.
-Assim não vale! Essa sou eu. Você tá
enrolando. Com essa história eu não vou dormir!
Quando lemos experimentamos o universal no
particular. Quando leio para minha filha, fico imaginando o que se
passa dentro de sua cabeça, como será que ela interpreta cada
entonação de voz, cada frase, cada nuance. Não há preocupação com o
sono, ele virá, certamente, mas será preenchido com as aventuras
que as palavras construírem. Os olhos parecem despertar. Pura
ilusão. Ela está realmente com sono, mas não se entrega, a não ser
àquele prazer particular que cada um de nós desfruta em seus
referenciais íntimos. Ela curte de verdade.
Poesias, contos, histórias compridas com
muitos capítulos, apenas imagens, importa apenas contá-las e
vivê-las naquele instante de quietude.
- Boa noite papai.
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